Qual liberdade escolher? | Opinião

Por Carolina Ricardo

Bolsonaro quer ser visto como aquele que lidera para a liberdade. Grupos de homens brancos, entre 30 e 50 anos, subiram em suas motos e percorreram cerca de 120 quilômetros em São Paulo, com o presidente à frente, com a placa do veículo coberta, sem máscara em plena pandemia, sem óculos de proteção e com capacete sem viseira.

A imagem impacta. Manifestações em motos são emblemáticas e dão uma ideia de grandes quantidades de participantes. O que, por óbvio, também é parte da estratégia. Além disso, a moto mobiliza um simbolismo bastante peculiar: virilidade, masculinidade e liberdade. Quem não se sente livre quando imagina estar sobre uma moto, acelerando e com o vento batendo no corpo?

Não à toa, esse simbolismo também é acionado quando se trata da arma de fogo. Grupos pró-armas têm o mesmo perfil dos participantes da motociata do presidente. E motos e armas habitam lugares imagéticos semelhantes. O bordão “não é sobre armas, é sobre liberdade” tem sido o mantra dos grupos armamentistas.

Não se trata aqui de gostar ou não de armas ou motos, mas de entender o que está em disputa. Um grupo pequeno e muito pouco diverso, mas barulhento, sobe em motos para apoiar o presidente em mais um momento agudo da pandemia, sem proteção, colocando a si e aos demais em risco. Grupos armamentistas seguem pressionando o presidente, o Congresso, o STF e o debate público, sobretudo nas redes sociais, por mais descontrole para ter uma arma e chamando essa série de privilégios de “liberdade”. Liberdade essa que aumenta os riscos daqueles que não querem ter arma e nem acham que mais armas é a solução para os problemas do Brasil.

Ocorre que a arma não é um bem qualquer, que só gera consequências para aquele que a possuiu. Ao revés, a arma de fogo gera consequências coletivas, sobretudo na realidade brasileira. Abastece o crime organizado, o crime cotidiano, os crimes de ódio, expõe policiais a riscos e gera uma perigosa e falsa sensação de segurança.

Nesse contexto, é importante se perguntar qual liberdade se reivindica quando se pede mais armas e para quem. É a liberdade para ter até 60 armas em casa, sem fiscalização sobre as condições de armazenamento, com acesso fácil por alguma criança que resolve abrir a gaveta da mesa de cabeceira? Ou então a liberdade para enfrentar o “folgado” que fechou seu carro no trânsito? Ou ainda, a liberdade para mostrar quem manda no bar ou em uma festa, quando os ânimos se exaltam regados a álcool? Ou, por fim, a liberdade de deixar sua arma sobre a mesa, bem na vista da sua esposa, vítima recorrente de violência doméstica?

Mas será essa a liberdade de que o Brasil precisa? Ou seria a liberdade para que todas as pessoas, brancas, pretas, pobres e ricas possam andar nas ruas em segurança? Liberdade para que todas as crianças cresçam com oportunidades de se desenvolverem plenamente? Ou poder escolher em que parte da cidade andar, com tranquilidade, em qualquer hora do dia? Essa liberdade não se conquista com mais pessoas armadas, e sim com polícias eficientes, que respeitem os cidadãos e por eles sejam respeitadas, com planeamento e inteligência, com políticas de prevenção para atacar as causas do medo e da violência.

Por tudo isso, atenção, a sua liberdade está em disputa. Com qual você vai ficar?

*Advogada e socióloga, é diretora-executiva do Instituto Sou da Paz



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