O impeachment de Bolsonaro: longe do ideal, mas necessário

Neste momento de visível fragilidade de Jair Bolsonaro, em flagrante queda nas pesquisas de popularidade e intenções de voto para as eleições presidenciais de 2022 e acuado por (quase) todos os lados, temos observado a proliferação de análises “objetivistas” segundo as quais ele já estaria “liquidado” para o pleito do próximo ano, principalmente, devido ao estado caótico da “economia” – isto é, da produção, da renda e do emprego – no país.

Antes de tudo, não concordamos com esta posição. Em primeiro lugar, simplesmente por não crermos que, com um ano e meio de antecedência, se possa ter certeza de qualquer resultado eleitoral. Em segundo, porque essa visão parece ignorar inteiramente um fato que, nessas alturas, já deveria estar muito mais do que claro para qualquer analista: que o “bolsonarismo” é um poderoso mobilizador de subjetividades.

Ele se orienta em grande medida por ódios e repulsas como o “anticomunismo”, o “antiesquerdismo”, o “antilulismo”, o “antipetismo”, o “antiglobalismo”, seja lá o que seus partidários entendam por esses termos; e também por paixões como o culto à ditadura militar, à violência, às armas, à tortura e ao extermínio de opositores.

Não ignoramos ou negamos, é claro, que o estado péssimo e de deterioração aparentemente ininterrupta das condições materiais de vida das pessoas vem prejudicando a imagem de Bolsonaro, assim como faria com qualquer presidente. Todavia, este não nos parece ser um elemento determinante para as suas chances em 2022. Senão, vejamos.

Bolsonaro está vivendo, hoje, o pior momento do seu inteiramente desastroso desgoverno. Temos um país tomado por uma pandemia em total descontrole, ceifando diariamente milhares de brasileiros há vários meses. Por outro lado, a vacinação segue em ritmo muito lento e descontínuo devido à nossa inteira dependência de insumos ou vacinas importadas, fruto das décadas de ausência de projeto nacional e de desmonte neoliberal implacável das nossas capacidades produtivas e tecnológicas.

Com isso, mas não apenas por isso, a chamada “economia” permanece em estado crítico, longe de qualquer recuperação substancial ou sustentada e ainda muito abaixo dos seus índices pré-crise de 2014, ou até antes disso para vários setores industriais.

Paralelamente, a CPI da pandemia vem caminhando para sistematizar e apresentar para a opinião pública – nacional e internacional – milhares de documentos que comprovem toda a longa cadeia de negligências deliberadas e incompetências que resultaram em milhões de doentes e centenas de milhares de mortos no nosso país.

Sob qualquer análise “objetiva” dos fatos, o comandante-em-chefe desta tragédia inaudita estaria, sem dúvidas, liquidado. Todavia, o que observamos é uma demonstração de resiliência impressionante. Em meio, talvez, à maior catástrofe da nossa história, as pesquisas de opinião vêm dando a Bolsonaro, consistentemente, ¼ a 1/3 de popularidade e de intenções de voto.

Como explicar isso à luz do (suposto) primado das “condições materiais de existência”? Assumir como dada a subordinação dos valores caros ao bolsonarismo à crise da “economia” nos parece, além de um equívoco analítico crasso, acima de tudo uma fantasia. E mais do que isso, uma fantasia irresponsável e extremamente perigosa.

Afinal, é perfeitamente plausível que, no segundo semestre do ano que vem, Bolsonaro esteja mais forte do que está hoje. Até lá, ao que tudo indica, a vacinação terá progredido substancialmente e boa parte, se não toda, a população adulta, pelo menos, já estará vacinada. As vacinas deverão ser bem menos escassas do que são hoje, pois já deveremos ter produção de fato autóctone de vacinas e insumos e já temos claros indícios, vindos do exterior, de que a vacinação contra a Covid terá que ser renovada periodicamente.

Se tudo isso acontecer, sem dúvidas teremos maior liberdade de movimentação e consumo de amplos setores da população por ora parcial ou totalmente reclusos. Assim, a tendência será de alguma melhora na renda e no emprego popular. Nada substancial, por certo, pois permaneceremos sob a ruína de Paulo Guedes, sem governo efetivo e sem investimentos públicos. Porém, alguma recuperação haverá e, em meio a uma crise tão profunda, qualquer progresso, ainda que modesto, nas condições de vida poderá significar alívio considerável para muita gente. Alívio que pode ser o suficiente para um aumento mais do que marginal na popularidade de Bolsonaro.

Em suma, se hoje as condições de Bolsonaro são ruins e suas perspectivas eleitorais parecem difíceis – no que concordamos – ambas deveriam ser muito piores, dado o quadro desolador vivido pelo país. Num Brasil há muito tomado por “maiorias silenciosas” individualistas, discretas, muitas vezes até envergonhadas em confessar de público as suas preferências políticas – mas maiorias que decidem eleições – Bolsonaro não pode ser tido, de antemão, como eleitoralmente derrotado. Fazê-lo é mais do que uma imprudência analítica, é uma irresponsabilidade.

Pesam sobre os ombros de Bolsonaro centenas de milhares de mortos, um país completamente sem rumo, uma devastação ambiental sem precedentes, o isolamento e a desmoralização internacional – e mesmo assim, ele permanece competitivo.

Portanto, consideramos que o seu impeachment deveria ser encarado por todos os brasileiros verdadeiramente preocupados com os destinos e a viabilidade do seu país como uma questão de segurança nacional. Não cabem, a este respeito, cálculos eleitorais como os que, segundo veículos da mídia, Lula vem fazendo, preferindo derrotar Bolsonaro nas urnas e agindo como se tivesse plena certeza de que o faria, como se tivesse garantias da redução do peso do sentimento antilulista na sociedade brasileira.

Não discordamos que vencer Bolsonaro numa eleição seria a melhor saída para construir a legitimidade do próximo presidente, qualquer que seja ele. Todavia, já está claro que os riscos envolvidos nessa aposta são enormes.

Bolsonaro opta por não governar e para isso já demonstrou ampla incapacidade moral, intelectual e política. Todavia, manteve parte ainda expressiva da sua popularidade, que parece se alimentar justamente do seu desgoverno, da sua narrativa de que não governa porque o “sistema” não deixa.

Nada o impedirá, alegando que não pôde governar porque os governadores, os ministros do STF, os “comunistas” e os “globalistas” não o deixaram, de se apresentar novamente como candidato “antissistema” e de, assim – contra todos os dados da “realidade objetiva” – mais uma vez mobilizar as paixões e os ódios de milhões de insatisfeitos e vencer.

 

Daniel S. Kosinski é doutor em Economia Política Internacional (UFRJ) e membro do Instituto da Brasilidade.



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