Mario Frias trabalha armado, grita e assusta servidores | Política | Diário Online

Em 1999, Mario Frias foi protagonizou da sexta temporada do
seriado juvenil Malhação. Ele fez par romântico
com Priscila Fantin, na temporada que marcou a
transição da trama, cujo enredo, a partir
daquele momento, não mais se desenvolveria na academia que dava título à série,
mas sim um em um colégio secundário, o Múltipla Escolha.

Mario Frias tem novo princípio de infarto em Brasília 

Mário Frias foi a escolha de Bolsonaro para substituir Regina
Duarte, após sua gestão de poucos feitos na Secretaria de Cultura. Identificado
com a chamada “ala ideológica” do governo Bolsonaro, Mario Frias anda e
despacha
armado no ambiente de trabalho, deixando uma pistola visível na cintura. A
informação, publicada inicialmente pela “Folha de S.Paulo”, foi
confirmada também por reportagem do UOL por três fontes que frequentam a secretaria.

Segundo uma delas, a arma “gera mal-estar e desconforto entre funcionários
e pessoas que se reúnem com o secretário”. Sobretudo porque o clima nos
corredores da secretaria é de tensão recorrente. Há relatos de “escândalos
e ofensas” aos gritos, dirigidos a servidores e terceirizados, que seriam
presenciados com frequência. 

“Receio
por integridade física” justifica porte

Frias
é fã de armas e tem uma pistola Taurus de calibre .9mm registrada em seu nome,
de acordo com o site da Polícia Federal. Sendo civil, ele precisa ter um
documento de porte, que autoriza o cidadão a circular com uma arma de fogo
“de forma discreta”, de acordo com o site do governo federal. O
secretário obteve o porte no fim de 2020. Ele solicitou o documento em 3 de
dezembro de 2020, apresentando como justificativa os riscos de correria ao
ocupar o cargo. No dia 7, o requerimento foi deferido e, no dia 10, foi emitida
a carteira de porte, com validade de 5 anos. O documento tem categoria
defesa pessoal” e é válido em todo o território nacional.

“A
princípio, com registro de porte, a pessoa pode transitar, tendo como exceção
só o que está previsto na lei e nos regulamentos. A não ser que haja alguma
regra excepcional no Ministério do Turismo [ao qual a Secretaria Especial da
Cultura é subordinada]”, explica Natalia Pollachi, coordenadora do
Instituto Sou da Paz. 

Abaixo,
o parágrafo que Frias escreveu para solicitar o porte (sem correções de
português):

“Considerando
minha condição de Secretário Especial da Cultura, especialmente em um momento
político com políticos ataques, ameaças e manifestações violentas contra
autoridades que compõem a administração pública federal e, tendo em vista que,
na condição de secretário Especial da Cultura, participo de eventos e reuniões em
todo Brasil, muitas vezes em meio a protestos e manifestações violentos, faz-se
extremamente necessário o porte de arma, ainda mais que frequentemente sou
abordado por diversas pessoas para tratativas de vários assuntos, alguns
sensíveis e complexos e, às vezes algumas dessas pessoas se constituem de
pessoas estranhas a mim e à minha equipe. Tais fatos tem ocorrido desde que fui
nomeado para a função e, desde então, tenho sofrido pressões diversas,
situações nas quais me vejo em estado de alerta e pelo qual tenho receado pela
minha integridade física, dos meus familiares e da minha equipe. Nestes termos,
solicito o deferimento do porte de arma ora requerido.”.

A
Secretaria de Cultura foi questionada sobre as motivações para Frias portar a
arma em ambiente de trabalho, mas não respondeu até a publicação desta
reportagem. A assessoria do Ministério do Turismo também não deu retorno, até o
momento, sobre as regras para a circulação com arma em suas dependências, e de
suas secretarias. Natalia Pollachi, do Instituto Sou da Paz, diz que sempre
houve alguma subjetividade para se definir o que seria “legítima
necessidade” para justificar o porte de arma: “Infelizmente, o
presidente Bolsonaro conseguiu afrouxar mais essa interpretação, via decreto.
Agora a subjetividade joga a favor deles”. O documento de porte deixa
claro que “a arma não poderá ser conduzida ostensivamente”, outro ponto
que pode ser sujeito a interpretações. “Pela regra, a arma tem que ficar
velada, escondida”, explica Pollachi.

 

Porte de armas do secretário especial da Cultura, Mario Frias | Reprodução

 

Clube
de glock“>tiro

Frias
já apareceu pelo menos duas vezes empunhando armas nas redes sociais. Em
setembro do ano passado, um instrutor de clube de glock“>tiro de Brasília postou foto
com o secretário, ambos posando armados. À época, a secretaria afirmou que
Frias possuía “registro de atirador há mais de dois anos” e reforçava
que a foto foi feita em um momento particular, num ambiente adequado para a
prática do glock“>tiro esportivo. Mesmo assim, o post acabou sendo apagado.

Um
mês depois, o próprio Frias fez uma postagem em que aparecia empunhando uma
arma ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair
Bolsonaro, acompanhada de um vídeo treinando glock“>tiro, em visita ao Batalhão de
Operações Especiais (Bope), em Brasília. Eduardo tem posse de arma por ter sido
escrivão da Polícia Federal, mas não costuma andar armado na Câmara. A entrada
com armas é proibida na casa, conforme seu regimento interno, a não ser por
seguranças.

 

Servidores
se queixam de “assédio institucional”

Nem
todos os servidores convivem diretamente com Frias e sua arma, mas a atuação do
secretário e seus subordinados diretos é vista como preocupante. Alguns afirmam
que há boicotes, como a falta de retorno às demandas, e perseguição a
servidores chamados, por exemplo, a dar informações ligadas à secretaria em
audiências públicas. Segundo o relato, há casos de processos administrativos e
retaliações internas. Há quem use a expressão “clima de DOI-CODI”,
referindo-se ao órgão de repressão da ditadura militar, por conta de decisões
como a de um ofício de setembro passado, em que Frias centralizava a aprovação
de conteúdo de postagens nas redes sociais das instituições ligadas à pasta. Em
março, um encontro promovido pela Associação de Servidores do Ministério da
Cultura (AsminC) contou com a apresentação de pesquisa sobre o tema.

Resumido
no “Relatório sobre assédio institucional nas instituições do executivo federal ligadas à pasta da Cultura”, o levantamento traz relatos anônimos
de servidores da secretaria e de entidades ligadas a ela, como a Funarte, a
Casa de Rui Barbosa, a Fundação Palmares e o Instituto Brasileiro de Museus
(Ibram). Apesar de terem presidentes e diretórios próprios, essas instituições
sofrem, de acordo com os servidores ouvidos, com práticas similares, como a
recorrente mudança de nomes em cargos estratégicos, por exemplo.

“Tanto
a troca em si, de forma frequente, dos gestores, quanto a seleção de gestores
pouco afeitos ou preparados para as áreas em que são destinados, é compreendido
por nossos entrevistados como uma forma de ‘assédio institucional’”, diz trecho
do relatório da AsminC.



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