Indicado por Bolsonaro coage, humilha e ameaça funcionários da Ceagesp

Dois ex-funcionários da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, a Ceagesp, acusam o presidente do órgão, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, de praticar coação, humilhação e violência. Os fatos narrados teriam ocorrido no dia 6 de maio deste ano e constam em denúncia feita ao Ministério Público de São Paulo.

O documento, que CartaCapital obteve com exclusividade, diz que Mello Araújo, ex-comandante da Rota, forçou o engenheiro Fábio Rogério Carbonieri e o técnico operacional Paulo Cesar Xavier a assinarem um pedido de demissão.

Segundo os relatos, Carbonieri e Xavier foram conduzidos por militares armados à sala do coronel que hoje chefia o órgão. No trajeto, proibidos de usar celulares, eles ouviram ofensas, xingamentos e ameaças.

Trecho da denuncia enviada ao MP-SP

A reportagem conversou com os dois ex-funcionários que afirmam terem sido injustiçados. Ambos não tiveram acesso às supostas provas que Mello Araújo e a sua diretoria diziam ter contra eles.

“Cheguei para trabalhar e meu gerente e mais dois policiais falaram eu estaria furtando energia elétrica e que nove pessoas tinham me denunciando. Fui levado para a sala da Presidência para eu assinar, sob ameaças, a minha demissão. Por medo, eu assinei. Eles disseram que, se eu não assinasse, sairia preso da Ceagesp”, diz Carbonieri. “Eu pedi para ler as provas que eles diziam ter, mas me disseram que como era denuncia não precisava”, acrescenta o engenheiro que é dirigente sindical e trabalhava há 23 anos no local.

O roteiro relatado por Carbonieri repetiu-se com Xavier, que tinha 16 anos de vida dedicados à empresa estatal. “Eu fui obrigado a assinar a demissão. A justificativa que eles deram é que fui reconhecido por um permissionário como responsável por uma ligação [elétrica] indevida”, conta.

“No dia 18 de abril, em um domingo, teve uma equipe que trabalhou próximo a esse permissionário e mudou a iluminação do pavilhão para o sistema automático. No dia seguinte, após o permissionário ficar sem energia, eu e um outro eletricista constatamos que havia sido feita uma instalação errônea e minha obrigação foi restabelecer a energia. Daí o gerente me disse que [a energia] não deveria ter sido religada. Ele também me disse que eu deveria resolver a situação ‘porque eu tinha família’ e ‘se eu não resolvesse por bem seria resolvido por mal, pois eu sairia de camburão’”, revela.

A CartaCapital, Xavier classifica a situação como “humilhante” ao lembrar que tentou explicar, por telefone, o que ocorrera à sua esposa.

“Eu liguei para a minha esposa para tentar explicar a situação e eles pressionando para que eu desligasse. Ela ouviu tudo. O policial catou o telefone e disse à minha esposa que eu pediria demissão. Depois, dois policiais me acompanharam até à porta do RH [Recursos Humanos]. Chegando lá, as duas responsáveis perguntaram o que havia acontecido e eu disse que estava sendo acusado por algo que não havia cometido. Eu comecei a chorar e elas me ditaram o que eu tinha que escrever. Assinei [a demissão] tremendo feito uma vara verde”.

Desde maio, tanto Carbonieri como Xavier, que ainda estão desempregados, temem pela própria vida. Ao falar com a reportagem, os ex-funcionários da Ceagesp relataram as ameaças e a pressão que sofreram.

“Estou sobrevivendo com ajuda de familiares. A homologação ainda não foi feita. Estou tentando me ajeitar como Uber. Sou diabético e a médica com que me consultei passou uma lista de exames que eu não tenho condições de pagar. Só Deus sabe de onde vou tirar esse dinheiro. Como eu pedi demissão, não receberei nem o Fundo de Garantia”, desabafa Xavier.

Trecho da denúncia apresentada ao MP-SP

 

Além da denúncia ao MP-SP, o Sindicato dos Empregados em Centrais de Abastecimento de Alimentos de São Paulo (Sindbast), levou o caso ao Secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo, general João Camilo Pires de Campos, ao senador Humberto Costa (PT-PE), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Casa, ao senador Paulo Paim (PT-RS), membro da Comissão de Assuntos Sociais, e ao deputado federal Afonso Motta (PDT-RS), que é presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público.

Além das ameaças, o sindicado alega  que Mello Araújo “aparelhou” a Ceagesp com a presença de policiais da ativa e da reserva no ambiente.

“Trouxeram para a empresa a prática de combate ao crime das ruas, mas nenhuma expertise no tocante à administração de abastecimento de alimentos”, diz o ofício encaminhado ao secretário de Segurança Pública do estado. “Passaram a tratar os funcionários como se estivessem em um quartel, estabelecendo, por exemplo, em vez da relação de tarefas a serem cumpridas durante um dia de trabalho, a chamada ‘ordem do dia’, uma prática da caserna”, completa.

Procurada, a Ceagesp disse sobre o caso que recebeu ” uma denúncia de furto de energia”. “De acordo com a denúncia apresentada à Diretoria, a energia elétrica estaria sendo fornecida para pessoas que nem poderiam usar esse serviço, pois são ambulantes”.

A empresa, em nota, afirmou que “diante da situação, dois, dos três funcionários envolvidos, pediram demissão e o outro está respondendo procedimento administrativo sobre esse fato”.

 

Militarização da Ceagesp

Os padrões militares foram adotados na Ceagesp desde que o presidente Jair Bolsonaro, em outubro de 2020, nomeou Mello Araújo como presidente da estatal que é uma das principais empresas brasileiras de abastecimento.

O coronel comandou a Rota entre agosto de 2017 e fevereiro de 2019. Logo que assumiu a chefia da tropa de elite da PM paulista, ele chegou a afirmar, em entrevista ao portal UOL, que as abordagens policiais deveriam ser realizadas de maneira diferente na região dos Jardins, bairro de elite, e na periferia.

“É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele [policial] abordar tem que ser diferente. Se ele for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”, disse à época.

“Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando”, acrescentou.

Nos primeiros dias como presidente da companhia, o coronel concedeu entrevista à rádio Bandeirantes. O vídeo foi publicado no canal do presidente Bolsonaro no Youtube. Na conversa com o apresentador José Luiz Datena, Mello Araújo fez uma série de acusações sobre supostos casos de corrupção na estatal.

“Nós chegamos chegando. O presidente me ligou, disse que estava precisando de mim e missão dada é missão cumprida”, afirmou. “Antes de eu chegar, choveram denúncias via Instagram”, revelou durante o bate-papo.

Em suas redes sociais, Mello Araújo costuma publicar vídeos do presidente da República, enaltecer sua gestão à frente da Ceagesp e criticar políticos como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

 

Um dos pontos altos da perseguição do coronel foi registrado por câmeras de segurança no dia 9 de dezembro de 2020 no Sindicato dos Carregadores Autônomos em Centrais de Abastecimento no Estado de São Paulo (Sindicar).

De acordo com Mário Souza, que à época era o vice-presidente do sindicato, Mello Araújo foi armado e acompanhado ao sindicato e ameaçou carregadores e o seu pai, José Pinheiro, que presidia o Sindicar.

“O presidente veio aqui, colocou uma arma no seu pai, o revistou, o chamou de bandido e disse que ele era membro de facção, além de várias de ameaças. Ele começou a dizer que tinha armas no local. Nós insistimos para mostrá-lo os balanços, as contas do sindicato, para provar que estava tudo certo. Ele chegou a ir no Datena dizendo que arrecadávamos 240 mil reais por mês e que erámos uma quadrilha”, disse.

CartaCapital obteve a íntegra do vídeo que dura quase uma hora. É possível identificar Mello Araújo nas imagens. Ele aparece com uma camisa branca. Assista alguns trechos.

“Eu cheguei a fazer uma live e pedir um direito de resposta ao Datena. O coronel viu e me disse: ‘se você falar mal de mim eu te arrebento. Coloca as mãos para trás e abaixa a cabeça que você é bandido. Volta para a tua terra que aqui não tem mais nada para você’”, lembra.

Souza relata que os desencontros começaram logo nos primeiros dias de Mello Araújo na Ceagesp.

“Fomos convidados para uma reunião com ele, que nos tratou super bem e disse que ia precisar de nossa ajuda. No meio da reunião, disse que tinham algumas reclamações dos carregadores sobre uma taxa e pediu para o Sindicar diminuir. Três dias depois, recebi uma ligação [dizendo] que o presidente da Ceagesp estava lá [no sindicato] acompanhado de coronéis para uma reunião. Eles disseram enfaticamente que não poderia mais cobrar a taxa”, conta. “Logo depois, ele estava fazendo uma live com o presidente da República com alguns carregadores dizendo que havia acabado com a taxa de 60 reais”.

De acordo com Souza as ameaças e a perseguição continuam. “Quando ele me vê, me chama de bandido e manda o pessoal dele passar três ou quatro vezes por dia na minha empresa. Chegaram ao ponto de arrombar o Sindicar e roubar atas e documentos”, acusa.



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