E viva o Texas! – Observador

Na véspera deste Memorial Day, quando os Estados Unidos celebram os caídos em combate, quero prestar homenagem aos texanos nas pessoas dos seus legisladores e Governador do Estado. Esta semana, o Texas aprovou uma lei que permite a compra e uso de armas pessoais sem qualquer tipo de constrangimento. Isto parece uma aberração – mas não é. Simplesmente frontalidade a moda texana.

As leis que existem nos outros estados (variam de um para outro, mas sempre generosas na ambiguidade), obviamente não tem impedido a compra e uso de armas por civis. Esta semana assistimos a outra mortandade para os lados da Califórnia. Nove assassinados e um suicídio em mais um caso de tiroteio em massa neste país. Apenas este ano, são quase 200 incidentes do género, deixando 250 cadáveres e 800 feridos – e ainda vamos a meio do segundo trimestre… e só estamos a lembrar incidentes de tiroteio em massa, porque muitos outros morrem todos os dias vítimas de um balázio.

Esta gente não brinca em serviço. De acordo com números já antigos do American Military News (2017, isto é, antes de a malta pro-Trump entrar num shopping spree de armas), existiam 400 milhões de armas nas mãos de civis; ou seja, 120% da população, e mais de 50% dos norte-americanos não têm armas em casa… Certa rapaziada está mais do que pronta para o que der e vier. Esses 400 milhões de armas comparam com os 6 milhões de armas na posse dos militares e da Polícia, ou seja, as forças da ordem estão em inferioridade de 1 para 100.  No Iémen – um deserto similar ao Wild West do século XIX – as armas são “apenas” 52% da população.

Não só há muitas armas nas casas dos meus vizinhos, como há todo o tipo de armas – na verdade, apenas é complicado comprar lança-granadas e bazucas, o resto é à-vontade. Um dia, por curiosidade, entrei num armeiro aqui no bairro. Não sou cidadão – sabem lá eles o que fiz ou não fiz no meu passado antes de chegar ao Novo Mundo! – mas bastou ao marçano 15 minutos para pôr os dados da minha carta de condução no computador para o background check e abrir-me as portas ao glorioso mundo do armamento. Sai de lá com um revólver e munições (que depositei numa esquadra da Polícia uns dias depois) mas poderia ter levado também um par de carabinas e metralhadoras ligeiras.

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O argumento dos portadores de armas é a famosa Segunda Emenda a Constituição, criada no espírito de autodefesa e como meio de resistir à opressão governamental. Proteger a propriedade e as liberdades individuais são o mote desta terra ainda hoje, mesmo que a revolução americana tenha acontecido há quase dois séculos e meio, e este seja um dos raros países onde o Estado (as Forças Armadas, Polícia, etc.) rara ou nunca se intromete na nossa vida privada. Ele há coisas assim.

Do mesmo modo que não quero ver norte-americanos a tentar mudar as leis de Portugal, também não quero defender a mudança da Lei dos Estados Unidos, por mais que isso ofenda a minha dignidade humana e consciência católica. Afinal, aqui vive-se em democracia – as pessoas votam nessas outras pessoas que se escusam a passar legislação para acabar com o morticínio. Problema deles. Mas talvez possa sugerir o erigir de um outro memorial, às vítimas dos tiroteios em massa, talvez no centro do triângulo formado pelos monumentos aos caídos no Vietname, Coreia e durante a Segunda Guerra no extenso Mall de Washington. Afinal, feitas as contas, cerca de 1,4 milhões de norte-americanos morreram em todas as guerras que combateram nos últimos 250 anos. Mas mais de 1,6 milhões foram mortos por armas de fogo civis nos últimos 50 anos.



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